quarta-feira, 12 de março de 2014

SOMOS E ESTAMOS



QUANDO o assunto é cidadania, todo mundo se acha injustiçado; eu, na verdade, acho tristemente engraçado. É que todo mundo se acha na condição de merecer algo melhor, mas cooperar com a ideia, que é bom.... Hum. Somos grotescos nas coisas mais simples de se fazer - que, no fundo, são as mais significativas. Precisamos construir a cidade. Não falo de urbanismo, menos ainda de arquitetura, pois edificada ela já está (bem ou não, é outra história).
É claro que precisamos de melhor atendimento e atenção das autoridades locais, pois não temos um plano eficaz contra alagamentos, a cidade cresceu desordenadamente, não temos o melhor serviço de saneamento básico do planeta, assim como não possuímos o melhor serviço de saúde... Claro que caminhamos, e continuamos andando. É aquela velha história: estamos longe de onde deveríamos, mas também muito distante de onde partimos. Hoje, novas preocupações se assomam a velhas questões; como por exemplo, o problema do lixo e da sustentabilidade, o problema da inclusão social das pessoas de condições especiais, como cadeirantes ou deficientes visuais... Mas há um problema de massa, um problema de cidadania; algo que eu, você, todos podemos melhorar - ou melhor, devemos! É saber que coletivo significa algo que abarca a todos, e não um só. Sendo assim, precisamos tomar isso como um ponto de partida de pensamento, uma concepção; assim, pensaremos melhor no outro, e todo munda acaba  pensando na gente, numa cadeia natural da engrenagem social. Temos que pensar que tudo que usufruimos, desfrutamos, tudo aquilo que é público, é nosso, e não nosso. Entenderam? O assento da parada de ônibus, o próprio ônibus, a calçada, o parque.. Não é meu, é nosso! Como alguém que suja o chão da sua cidade pode se sentir injustiçado de morar numa cidade suja? As pessoas fumam, e descartam o cigarro (aceso!) na calçada, no asfalto, onde estiverem... Às vezes, quase inteiro, quando chega seu ônibus. E a responsabilidade de cuidar do que é
NOSSO? Por que não depositar numa lixeira? Não tem perto? Ascende o cigarro noutro lugar... Porque quando se joga na rua não é o governo que paga por supostamente não ter instalado uma lixeira ali, e sim EU, O OUTRO, O PRÓPRIO FUMANTE! 

Tem pessoas que se sentem os donos da cidade. Não que não sejam, mas não o são sozinhos... Fico louco quando estou num ponto de ônibus e vejo um daqueles moleques - porque pra mim é coisa de moleque - sentar-se no encosto do banco instalado no ponto de ônibus e meter os pés no assento! Talvez ele nunca nem utilize o assento pra botar a bunda, não sei, mas e os outros?! Se senta ali, não no encosto! Quem de nós ainda não entrou num ônibus que tem algum outro dono do mundo  ouvindo música no celular sem o fone? E se eu fizer o mesmo? E o cara do lado também, e a moça de trás, e o outro do meio, e cada um da turma dos fundos? Já pensou o que vira aquilo? Ninguém ouve nada, e todo mundo enlouquece! É por isso que é proibida a execução de música em volume alto... Mas quem respeita?! Também é por isso que os fones estão disponibilizados com os celulares, mas o fulano não os usa. E o pior, é que se eu tentar compreender, não consigo: 1) Ele quer vender o celular, 2) ele quer mostrar que tem o aparelho tal, e 3) ele quer obrigar a todos ouvir a música que ele ouve, pois com o fone ele ouve do mesmo jeito - correção: ouve bem melhor até. É como o espertinho que entra no meio de uma fila aos poucos, porque algum conhecido permitiu...
Ou o cara que usa trinta folhas de papel toalha pra enxugar a mão... E tem outras coisas bem bizarras: aqui na rua, vira e mexe, um otário coloca o carro no meio (NO MEIO!) da rua, estende a bandeira do seu time (nem digo qual é, pois provavelmente você acertou), e liga o som num volume absurdo pra exibir o seu supersom de 2500 reais, abrindo as portas do carro, e deixando rolar... aquilo. Aquele barulho monstruoso que fala um monte de palavrão, que tem uma criatura feminina gemendo e gritando juntamente com aquele que seria o cantor. Os palavrões, os gemidos, os efeitos, são libertados a toda do som do carro, não importando-se com mais ninguém da rua, com mulheres ou crianças que passem por ali. Porque na cabeça do trouxa que precisa daquilo pra se sentir alguém, todos - até mesmo estando dentro de sua casa - tem a OBRIGAÇÃO de ouvir o que ele quer. Me pergunto... Será que na casa dele ele realmente ouve aquilo se souber que ninguém mais está vendo que ele está ouvindo? Aí eu volto à questão do ônibus: e se todos ali abrissem as portas de seus carros, no meio da rua, ou puxasse suas caixas de som e, todos, em volume máximo deixassem a música, ou seja lá o que fosse, rolar? Algum deles aguentaria? Acredito que não. Somos e estamos em determinado patamar, e o demonstramos  em nossas concepções e atitudes. Me pergunto se pessoas assim sabem o que é cidadania, e que tipo de sociedade elas sonham para elas ou para seus filhos. E nós? Se pensarmos bem, será que estamos construindo aquilo que queremos para o nosso futuro, ou também estamos sendo hipócritas e demagogos? Acho que vale a pena pensar nisso. A cidade é ruim, os políticos não dão a mínima? E nós, até onde nos preocupamos? Até onde agimos? Será que já fizemos tudo o que podíamos pelo bem coletivo? Será que dificulta muito pra gente, pensar no outro? É uma pena... Porque com tantas voltas que essa cidade (e esse mundo) dá, podemos ser vitimas de nós mesmos, se é que já não o somos. Que SOMOS e ESTAMOS de alguma forma, é certo. Resta-nos agora saber a partir de onde, e até onde também.

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