QUANDO o
assunto é cidadania, todo mundo se acha injustiçado; eu, na verdade, acho
tristemente engraçado. É que todo mundo se acha na condição de merecer algo
melhor, mas cooperar com a ideia, que é bom.... Hum. Somos grotescos nas coisas
mais simples de se fazer - que, no fundo, são as mais significativas.
Precisamos construir a cidade. Não falo de urbanismo, menos ainda de
arquitetura, pois edificada ela já está (bem ou não, é outra história).
É claro
que precisamos de melhor atendimento e atenção das autoridades locais, pois não
temos um plano eficaz contra alagamentos, a cidade cresceu desordenadamente,
não temos o melhor serviço de saneamento básico do planeta, assim como não
possuímos o melhor serviço de saúde... Claro que caminhamos, e continuamos
andando. É aquela velha história: estamos longe de onde deveríamos, mas também
muito distante de onde partimos. Hoje, novas preocupações se assomam a velhas
questões; como por exemplo, o problema do lixo e da sustentabilidade, o
problema da inclusão social das pessoas de condições especiais, como
cadeirantes ou deficientes visuais... Mas há um problema de massa, um problema
de cidadania; algo que eu, você, todos podemos melhorar - ou melhor, devemos! É
saber que coletivo significa algo que abarca a todos, e não um só. Sendo assim,
precisamos tomar isso como um ponto de partida de pensamento, uma concepção;
assim, pensaremos melhor no outro, e todo munda acaba pensando na gente,
numa cadeia natural da engrenagem social. Temos que pensar que tudo que
usufruimos, desfrutamos, tudo aquilo que é público, é nosso, e não nosso.
Entenderam? O assento da parada de ônibus, o próprio ônibus, a calçada, o
parque.. Não é meu, é nosso! Como alguém que suja o chão da sua cidade pode se
sentir injustiçado de morar numa cidade suja? As pessoas fumam, e descartam o
cigarro (aceso!) na calçada, no asfalto, onde estiverem... Às vezes, quase
inteiro, quando chega seu ônibus. E a responsabilidade de cuidar do que é
NOSSO? Por que não depositar numa lixeira? Não tem perto? Ascende o cigarro
noutro lugar... Porque quando se joga na rua não é o governo que paga por
supostamente não ter instalado uma lixeira ali, e sim EU, O OUTRO, O
PRÓPRIO FUMANTE!
Tem
pessoas que se sentem os donos da cidade. Não que não sejam, mas não o são
sozinhos... Fico louco quando estou num ponto de ônibus e vejo um daqueles
moleques - porque pra mim é coisa de moleque - sentar-se no encosto do banco instalado
no ponto de ônibus e meter os pés no assento! Talvez ele nunca nem utilize o
assento pra botar a bunda, não sei, mas e os outros?! Se senta ali, não no
encosto! Quem de nós ainda não entrou num ônibus que tem algum outro dono do
mundo ouvindo música no celular sem o fone? E se eu fizer o mesmo? E o
cara do lado também, e a moça de trás, e o outro do meio, e cada um da turma
dos fundos? Já pensou o que vira aquilo? Ninguém ouve nada, e todo mundo
enlouquece! É por isso que é proibida a execução de música em volume alto...
Mas quem respeita?! Também é por isso que os fones estão disponibilizados com
os celulares, mas o fulano não os usa. E o pior, é que se eu tentar
compreender, não consigo: 1) Ele quer vender o celular, 2) ele quer mostrar que
tem o aparelho tal, e 3) ele quer obrigar a todos ouvir a música que ele ouve,
pois com o fone ele ouve do mesmo jeito - correção: ouve bem melhor até. É como
o espertinho que entra no meio de uma fila aos poucos, porque algum conhecido
permitiu...
Ou o cara que usa trinta folhas de papel toalha pra enxugar a
mão... E tem outras coisas bem bizarras: aqui na rua, vira e mexe, um otário
coloca o carro no meio (NO MEIO!) da rua, estende a bandeira do seu time (nem
digo qual é, pois provavelmente você acertou), e liga o som num volume absurdo
pra exibir o seu supersom de 2500 reais, abrindo as portas do carro, e deixando
rolar... aquilo. Aquele barulho monstruoso que fala um monte de palavrão, que
tem uma criatura feminina gemendo e gritando juntamente com aquele que seria o
cantor. Os palavrões, os gemidos, os efeitos, são libertados a toda do som do
carro, não importando-se com mais ninguém da rua, com mulheres ou crianças que
passem por ali. Porque na cabeça do trouxa que precisa daquilo pra se
sentir alguém, todos - até mesmo estando dentro de sua casa - tem a OBRIGAÇÃO
de ouvir o que ele quer. Me pergunto... Será que na casa dele ele realmente
ouve aquilo se souber que ninguém mais está vendo que ele está ouvindo?
Aí eu volto à questão do ônibus: e se todos ali abrissem as portas de seus
carros, no meio da rua, ou puxasse suas caixas de som e, todos, em volume
máximo deixassem a música, ou seja lá o que fosse, rolar? Algum deles
aguentaria? Acredito que não. Somos e estamos em determinado patamar, e o demonstramos
em nossas concepções e atitudes. Me pergunto se pessoas assim sabem o que é
cidadania, e que tipo de sociedade elas sonham para elas ou para seus filhos. E
nós? Se pensarmos bem, será que estamos construindo aquilo que queremos para o
nosso futuro, ou também estamos sendo hipócritas e demagogos? Acho que vale a
pena pensar nisso. A cidade é ruim, os políticos não dão a mínima? E nós, até
onde nos preocupamos? Até onde agimos? Será que já fizemos tudo o que podíamos
pelo bem coletivo? Será que dificulta muito pra gente, pensar no outro? É uma
pena... Porque com tantas voltas que essa cidade (e esse mundo) dá, podemos ser
vitimas de nós mesmos, se é que já não o somos. Que SOMOS e ESTAMOS de alguma
forma, é certo. Resta-nos agora saber a partir de onde, e até onde também.



